“O temor do Senhor é o
princípio do saber; mas os loucos desprezam a sabedoria e o ensino.” Provérbios
1:7
“Examine-se, pois, o homem a
si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice.” 1
Coríntios 11:28
A Ceia do Senhor é um dos
momentos mais significativos da vida cristã. Ela nos conduz diretamente à cruz,
ao sacrifício de Cristo e à esperança de sua volta. Por isso, não deveria ser
tratada apenas como um ritual que repetimos periodicamente.
Paulo apresenta uma
advertência séria à igreja de Corinto: “Por isso, aquele que comer o pão ou
beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do
Senhor” (1Co 11:27).
Mas o que significa, de
fato, participar da Ceia indignamente?
Será que isso significa que
somente pessoas perfeitas podem participar?
Certamente não.
Se dependesse da nossa
própria perfeição, ninguém poderia se aproximar da mesa do Senhor. A Ceia não é
um prêmio para quem nunca pecou. Ela nos lembra justamente que dependemos da
graça de Cristo.
O problema está na maneira
como participamos.
O temor do Senhor é o ponto
de partida
Provérbios 1:7
apresenta uma verdade que ajuda a compreender a advertência de Paulo:
“O temor do Senhor é o
princípio do saber.”
Temer ao Senhor não
significa viver apavorado diante de Deus. Significa reconhecê-lo como Senhor,
respeitar sua Palavra, reconhecer nossa limitação e estar disposto a obedecer.
Existe uma diferença entre conhecer
a Palavra de Deus e permitir que a Palavra de Deus governe nossa vida.
Uma pessoa pode conhecer
muitos versículos, frequentar a igreja durante anos, participar de cultos e até
ensinar outras pessoas e, ainda assim, resistir à correção da Palavra.
Por isso, quem realmente
teme ao Senhor não pergunta apenas: “O que a Bíblia diz?”
Também pergunta: “O que a
Palavra de Deus está exigindo de mim?”
Essa pergunta muda tudo.
A igreja de Corinto conhecia
o ritual, mas havia perdido o sentido
O contexto de 1 Coríntios 11
é bastante esclarecedor.
Os cristãos de Corinto
estavam reunidos para participar da Ceia, mas havia entre eles egoísmo,
divisões e falta de consideração pelos irmãos.
Eles tinham o pão.
Tinham o cálice.
Tinham a reunião.
Mas estavam falhando em
compreender o significado daquilo que estavam fazendo.
A Ceia apontava para o corpo
de Cristo entregue por eles, para o sangue da nova aliança e para a comunhão
entre aqueles que pertenciam ao mesmo corpo.
Como poderiam celebrar o sacrifício de Cristo enquanto tratavam os próprios irmãos com desprezo?
É justamente nesse contexto
que Paulo apresenta sua advertência.
Afinal, o que é tomar a Ceia
indignamente?
Participar indignamente não
significa participar sendo uma pessoa imperfeita.
Significa participar sem
discernimento, sem reverência, sem arrependimento e sem considerar a seriedade
do que a Ceia representa.
Existe uma grande diferença
entre alguém que reconhece suas fraquezas e luta para viver de acordo com a
Palavra de Deus e alguém que escolhe conscientemente viver no pecado, não
deseja mudar e, ainda assim, participa da Ceia como se nada estivesse acontecendo.
O problema não é
simplesmente a existência de pecado.
O problema é tratar o
pecado com indiferença e tratar as coisas santas de Deus com superficialidade.
“Examine-se”
Talvez essa seja uma das
expressões mais importantes da passagem:
“Examine-se, pois, o
homem a si mesmo...”
Antes de olhar para o irmão,
olhe para si.
Antes de procurar defeitos
nos outros, examine o próprio coração.
Antes de participar da Ceia
apenas por hábito, pare e reflita.
Pergunte a si mesmo:
Como está minha vida diante
de Deus?
Tenho procurado viver de
acordo com sua Palavra?
Tenho alimentado
ressentimentos?
Tenho desprezado alguém?
Tenho tratado o pecado como
algo normal?
Tenho usado o nome de
Cristo, mas vivido de maneira incompatível com aquilo que Ele ensinou?
Tenho buscado apenas as
bênçãos de Deus ou realmente desejo obedecê-lo?
Tenho sido responsável por
afastar irmãos da igreja?
Minha maneira de falar e
agir tem feito alguém se sentir rejeitado, humilhado ou indesejado na casa de
Deus?
Tenho contribuído para a
edificação do corpo de Cristo ou para sua divisão?
Essa última reflexão é
especialmente importante.
Nem sempre percebemos o
impacto que nossas palavras e atitudes podem produzir na vida de outras
pessoas.
Uma crítica desnecessária,
uma fofoca, uma palavra humilhante, uma atitude de superioridade, um julgamento
precipitado, uma disputa ou simplesmente a falta de acolhimento podem ferir
profundamente alguém.
Precisamos ter humildade
suficiente para perguntar:
“Será que alguma atitude
minha contribuiu para que essa pessoa se afastasse?”
Essa é uma pergunta difícil.
Mas o verdadeiro autoexame
nem sempre produz perguntas confortáveis.
A Ceia também nos faz olhar
para os outros
O autoexame não deve ficar
limitado à nossa relação individual com Deus.
A Ceia também aponta para a
comunhão do corpo de Cristo.
Paulo escreve: “Porque
nós, sendo muitos, somos unicamente um pão, um só corpo.” 1 Coríntios 10:17
Isso significa que não
podemos celebrar o amor de Cristo e, ao mesmo tempo, alimentar deliberadamente
o desprezo pelos nossos irmãos.
Não podemos falar sobre a
graça enquanto negamos graça aos outros.
Não podemos celebrar o
perdão recebido de Deus enquanto nos recusamos a perdoar.
Não podemos lembrar o
sacrifício de Cristo e, ao mesmo tempo, agir como se os outros membros do seu
corpo não tivessem valor.
A Ceia nos chama à reflexão
não apenas sobre como estamos diante de Deus, mas também sobre como
estamos diante das pessoas.
Não somos dignos por nossa
própria justiça
Esse ponto precisa ficar
muito claro.
Participar dignamente não
significa considerar-se digno por mérito próprio.
Nossa esperança não está na
nossa perfeição.
Nossa esperança está em
Cristo.
Quando examinamos nossa vida
e percebemos nossas falhas, a resposta não deve ser simplesmente:
“Eu não tenho condições de
me aproximar de Deus.”
O autoexame deve nos
conduzir ao arrependimento:
“Senhor, reconheço minhas
falhas. Preciso da tua graça. Perdoa-me, transforma-me e ajuda-me a viver de
acordo com tua Palavra.”
A Ceia aponta novamente para
Cristo.
Ela nos lembra que nossa
salvação não está fundamentada naquilo que conseguimos fazer por nós mesmos,
mas naquilo que Cristo fez por nós na cruz.
O perigo de transformar a
Ceia em rotina
Uma das maiores ameaças à
vida espiritual é transformar aquilo que é santo em simples rotina.
Podemos nos acostumar com os
cultos.
Com os hinos.
Com as orações.
Com as pregações.
E até mesmo com a Ceia.
Quando isso acontece,
corremos o risco de realizar o ritual sem experimentar a profundidade daquilo
que ele representa.
A repetição não deveria
produzir indiferença.
Pelo contrário, cada
participação deveria renovar em nós a consciência de que Cristo morreu por
nós e que aguardamos sua volta.
Paulo afirma: “Porque,
todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte
do Senhor, até que venha.” 1 Coríntios 11:26
A Ceia é, portanto, uma
proclamação do evangelho.
Ela anuncia a cruz.
Anuncia a graça.
Anuncia a nova aliança.
E anuncia que Cristo
voltará.
O verdadeiro sábio aceita ser corrigido
Voltamos então a Provérbios
1:7: “O temor do Senhor é o princípio do saber; mas os loucos desprezam a
sabedoria e a instrução.”
O louco não é
necessariamente aquele que não possui conhecimento.
É aquele que não aceita
ser ensinado, corrigido ou confrontado.
Isso também pode acontecer
dentro da igreja.
Podemos aceitar a Palavra
quando ela nos consola e rejeitá-la quando ela nos confronta.
Mas a verdadeira sabedoria
começa quando permitimos que Deus mostre aquilo que precisa ser transformado em
nós.
O sábio não é aquele que
nunca erra.
É aquele que reconhece
seus erros e aceita ser corrigido.
Por isso, o autoexame antes
da Ceia é também uma demonstração de sabedoria.
É reconhecer:
“Ainda preciso aprender.”
“Ainda preciso mudar.”
“Ainda preciso da graça
de Deus.”
Antes da Ceia, olhe para
Cristo — mas examine o coração
Tomar a Ceia dignamente não
significa chegar à mesa dizendo: “Eu sou perfeito e mereço estar aqui.”
Significa chegar dizendo: “Eu
reconheço quem Cristo é, compreendo o preço do seu sacrifício, reconheço minhas
falhas, arrependo-me dos meus pecados e dependo da sua graça.”
E existe uma pergunta que
não deveria ser ignorada:
Tenho sido instrumento para
aproximar pessoas de Cristo ou, por minhas palavras e atitudes, tenho
contribuído para afastar irmãos da igreja?
Essa pergunta pode ser
desconfortável, mas pode também ser transformadora.
Talvez seja necessário pedir
perdão.
Talvez seja necessário
abandonar uma atitude.
Talvez seja necessário
procurar alguém que ferimos.
Talvez seja necessário
reconciliar-nos.
Talvez seja necessário
simplesmente reconhecer diante de Deus que precisamos mudar.
O verdadeiro exame não
procura justificar nossas atitudes. Procura descobrir aquilo que precisa ser
transformado.
Enfim:
Provérbios 1:7 e 1 Coríntios
11:27-29 nos ensina uma verdade:
Deus não deseja uma fé
apenas ritualística. Ele deseja uma fé consciente, reverente e transformadora.
O temor do Senhor nos ensina
a levar Deus a sério.
A Palavra nos ensina a
examinar nossa vida.
O exame nos conduz ao
arrependimento.
O arrependimento nos conduz
à graça.
E a graça nos conduz
novamente a Cristo.
A Ceia não é um prêmio para
os perfeitos.
É uma celebração daquele que
perdoa, transforma e salva.
Por apontar para uma
realidade tão santa, ela não deve ser tratada de qualquer maneira.
Antes de tomar o pão e o
cálice, talvez seja necessário parar por alguns instantes e perguntar:
Como está meu coração diante
de Deus?
Como tenho tratado meus
irmãos?
Tenho contribuído para a
unidade ou para a divisão?
Tenho aproximado pessoas de
Cristo ou as afastado?
Estou participando da Ceia
apenas por tradição ou compreendo verdadeiramente o que estou celebrando?
Que o temor do Senhor nos
ensine a examinar o coração.
Que o exame nos conduza ao
arrependimento.
Que o arrependimento nos
conduza à graça.
E que a graça nos leve a uma
vida cada vez mais parecida com Cristo.
“Examine-se, pois, o homem a
si mesmo, e, assim coma do pão, e beba do cálice.” 1
Coríntios 11:28
A graça do Senhor Jesus seja
com todos!





