“Ai dos que se levantam pela
manhã para seguir a bebida forte… e não consideram as obras do Senhor.” (Isaías
5:11-12)
O brado de Isaías não
pertence a um passado distante. Ele descreve, com precisão desconfortável, a
realidade de uma geração que transformou o excesso em virtude e a ausência de
Deus em estilo de vida. O profeta denuncia uma sociedade que amanhece buscando
embriaguez e adormece ignorando o Senhor. A pergunta é inevitável: o que mudou?
Em períodos como o carnaval,
essa advertência bíblica ganha contornos ainda mais evidentes. O discurso
oficial fala de cultura, liberdade e alegria. Mas, por trás da narrativa
romantizada, o que se vê é a celebração da desmedida. Exalta-se a perda de controle
como se fosse libertação. Trata-se a embriaguez como direito, a sensualização
como empoderamento e a irresponsabilidade como autenticidade.
Não se trata de demonizar
cultura ou música. O problema é outro: quando o prazer ocupa o trono e Deus é
empurrado para a periferia da consciência. Quando qualquer limite é visto como
opressão. Quando a única regra é “sentir”, “experimentar” e “aproveitar”,
independentemente das consequências.
A sociedade repete, quase
como um dogma: “Você merece ser feliz.” Mas nunca explica que felicidade
construída sobre impulsos é frágil. O álcool e as drogas prometem euforia, mas
frequentemente entregam acidentes, violência e decisões irreversíveis. A liberdade
proclamada nas ruas muitas vezes termina em lares feridos, consciências
culpadas e relacionamentos despedaçados.
Há um custo, sempre há. Só
que ele raramente aparece nas propagandas, nos discursos oficiais ou nas
postagens festivas. Ele surge depois: nas estatísticas de violência, nas
famílias desestruturadas, nas vidas marcadas por escolhas feitas sob efeito de
instantes intensos e pouco refletidos.
Isaías descreve festas,
instrumentos, celebrações. O problema nunca foi a música. O problema era a
indiferença espiritual. “Não consideram as obras do Senhor.” Eis o diagnóstico.
Uma sociedade pode cantar alto e, ainda assim, estar espiritualmente surda.
Pode sorrir para as câmeras e, ao mesmo tempo, caminhar para o vazio.
O cristianismo não propõe
uma vida sem alegria. Pelo contrário: oferece uma alegria que não depende de
substâncias químicas, não exige máscaras e não cobra juros emocionais depois. A
alegria que vem de Deus não destrói vínculos, não banaliza o corpo, não
transforma pessoas em objetos de consumo momentâneo.
O que está em jogo não é um
evento isolado, mas uma mentalidade: a crença de que prazer sem
responsabilidade não causa danos. A história mostra o oposto. Civilizações não
entram em colapso apenas por crises econômicas ou políticas, mas por erosão
moral; quando o excesso deixa de ser vício e passa a ser celebrado como valor.
Ignorar isso não é sinal de
progresso; é sinal de cegueira voluntária. O alerta de Isaías continua ecoando
porque continua necessário. Uma geração que se acostuma a viver anestesiada
dificilmente perceberá quando estiver espiritualmente falida.
A questão final não é
cultural, é espiritual: quem ocupa o centro? O prazer momentâneo ou o Senhor da
vida? Porque toda sociedade que escolhe viver sem considerar as obras de Deus
acaba, inevitavelmente, colhendo as consequências dessa decisão.







